top of page

Um Presente do Outro Mundo

Atualizado: 17 de mar. de 2023




Numa tarde fria do mês de junho, Elza Borges chegou das compras. Havia passado o dia na companhia de amigas e voltara do Shopping local carregada de sacolas a bordo de um táxi de luxo.

A serviçal já estava de saída e a patroa a observou com ares de reprovação. Precisava arranjar uma nova empregada, pois aquela além de exigir demais os seus direitos, não prestava para ficar um minuto a mais no trabalho. Fez um aceno quando Zefa se despediu, após haver lhe ajudado com as compras e informado que deixara o jantar pronto.

— Ah! Dona Elza… — voltou a mulher que já se aproximava do portão. — Chegou uma encomenda para a senhora.

A patroa esboçou um ar admirado e ela prosseguiu:

— Deixei o pacote ao lado da cristaleira.

— Muito bem!

A empregada se foi e Elza fechou a porta. Estava sozinha na mansão, além dos seguranças que vigiavam a propriedade.

— Ah! Zefa, Zefa… — monologou irritada, enquanto jogava o casaco sobre um recamier e dirigia-se ao bar em busca de um drinque. — Ainda lhe pego de jeito, sujeita preguiçosa. Se eu tivesse me demorado mais um pouco, não a encontraria em casa e teria que carregar sozinha estas sacolas. Tá me saindo uma bela duma bisca.

Seguiu para a cozinha. Estava faminta. O dia inteiro comera aquelas besteiras das quais “gente rica” é acostumada. As amigas magérrimas se privavam de qualquer coisa apetitosa. Observou o pato assado e a travessa de lasanha que Zefa preparara. Ah, como era bom o tempo em que Zefa dormia na mansão em período integral, antes que começassem com essa história de direitos da doméstica e ela tivesse que registrar a serviçal, recolhendo os encargos e se comprometendo a pagar-lhe todos os direitos ao final do mês. De uma hora para outra, teve que abrir mão do período integral, Zefa iria ganhar uma fortuna e ela não era tola. Tinha amor ao seu dinheiro conquistado a duras penas.

Pensou em Heitor, mas sentindo um arrepio, desviou o pensamento. Vivera cinco longos anos na companhia do velho asqueroso, sendo motivo de chacotas para as amigas faladeiras. Mas agora ele estava morto, graças a Deus! Toda a riqueza que o velho guardara a sete chaves, agora era dela. Descobrira uma imensa fortuna verificando seus dados no “laptop” que ele deixara descuidadamente ligado e o site do banco logado. Desde então, tudo fez até conseguir, com a ajuda do irmão, rackear as contas do marido e, lentamente, passou a furtar-lhe o saldo. Heraldo conseguiu clonar um dos cartões de Heitor, o qual Elza havia sorrateiramente se apropriado. O velho mantinha tudo à mão de ferro e ela nunca tivera acesso aos seus bens. Em certa ocasião, numa discussão, ameaçara deixar tudo o que tinha para seu filho único, Miguel. Elza engoliu o orgulho e pediu-lhe desculpas. Ainda não era o momento de agir.

Chorosa, procurou a ajuda do irmão. Heraldo irritou-se com o sofrimento da irmãzinha amada, dizendo que tomaria conta de tudo. Despediu-se feliz, confiava em seu mano. Duas semanas depois, ficou sabendo da morte trágica de Miguel, ao ser assaltado por bandidos quando saía de uma balada.

Comemorou em silêncio quando acompanhara o marido ao velório do enteado, fazendo-se de sofredora. Observou Heitor aos prantos na beira do caixão, abraçado com Marinalva, a velha tia, sua única parente ainda viva, e pensou decidida que ele, em breve, faria companhia ao filho. Foi nessa hora que sentiu todo o rancor mal contido no olhar da velha harpia; Marinalva Borges, uma solteirona, que passara a vida envolvida com misticismo e coisas do outro mundo, e que nunca havia simpatizado com ela. Elza sabia que ela a desprezava por sua origem humilde. Velha arrogante! Diziam que ela podia falar tanto com Deus quanto com o Diabo. Tolices. Para ela, não passava de uma charlatã, mal-amada e que passara a vida a ludibriar os mais incautos extorquindo dinheiro deles. Sabia que Heitor sempre bancara os gastos daquela bruxa, mas isso estava com os dias contados.

Antes, porém, precisava se livrar do marido. Já não conseguia disfarçar sua repulsa quando ele a procurava na cama, cheio de intenções. Passou a manipular os remédios que Heitor tomava. Trocou os comprimidos para tratamento do coração por outros parecidos, aspirinas ou analgésicos quaisquer. As cápsulas para controle de diabete foram esvaziadas, substituindo seus conteúdos por amido de milho. Aumentou o sal na comida, adulterou os frascos de adoçante colocando açúcar e pacientemente esperou.

Numa noite chuvosa, Heitor teve uma crise. Ela fingiu ligar por socorro. O ancião passava mal, a face pálida começou a roxear e ele caiu, rolando pelo tapete da sala. Elza então ligou “desesperada” para o hospital. Heitor foi levado pelo socorro e não mais voltou.

Há três meses ela passara a gerenciar a herança; havia compensado generosamente o irmão, que não imaginava que ela tivesse feito o que fez para se livrar do esposo. Sempre elogiara sua boa índole, afirmando ser ele a ovelha negra da família. Elza sempre cumprira muito bem sua parte no teatro da vida e agora se sentia feliz e vitoriosa. E isso era tudo o que lhe importava. Ceou o pato com lasanha tendo como acompanhamento um bom vinho. Iria se deitar e descansar um pouco, pois o dia havia sido cheio, mas lembrou-se, ao se aproximar da escada, do pacote de que Zefa falara.

Pelo jeito, tratava-se de uma caixa. Procurou o remetente, não encontrando nada. Levou o embrulho para a mesa. O que poderia ser? Talvez uma das amigas lhe mandara algum brinquedo erótico, ou algo parecido, pois viviam falando sobre essas coisas. Sim, talvez fosse uma brincadeira, por isso a falta do nome de quem o enviou. Rasgou o papel aluminizado, que revelou uma caixa de plástico. Que estranho, monologou, enquanto procurava o lacre da mesma. Ao achar, abriu. Uma fumaça escura se desprendeu do recipiente, exalando um cheiro nauseante. Gritou assustada. Uma coisa esférica saltou nesse momento de dentro da caixa. Era a cabeça de Heitor, a fitá-la com olhos vermelhos, injetados de sangue.

“Assassina!” — A voz soara guturalmente da cabeça inexplicavelmente viva.

Elza tentou correr, mas sentiu as pernas faltarem. Sua cabeça tonteou e um tremor tomou o seu corpo de espasmos. Quis gritar, mas a voz não saiu.

“Estava com saudades, Elza, por isso voltei para você. Vamos ficar juntos, minha doce Elza.” — Uma nova gargalhada tomou os ouvidos da mulher, preenchendo sua alma de terror. Sentiu as vistas escurecerem e caiu sobre o tapete persa.

A cabeça à sua frente gargalhava, rastejando em sua direção. Subiu, deslizando por suas pernas, alcançando seu ventre e, em seguida, seus seios, os quais lambeu, com a língua preta e áspera.

A mulher desesperada rolou pelo tapete tentando se livrar daquele horror, empurrando aquela coisa asquerosa para longe. Chutou a cabeça que rolou pelo piso feito uma bola de futebol.

Erguendo-se, num esforço titânico, Elza se apoiou na mesa e procurou pela faca que havia cortado o assado. Sentiu então uma dor aguda na batata da perna direita. Agarrando pelos cabelos esbranquiçados, puxou a cabeça que mordia sua perna para cima da mesa e a golpeou com a faca. A lâmina entrou macia pelo olho da criatura e o sangue jorrou espesso. Voltou a golpear, agora às cegas, enlouquecida de ódio. A dor em sua perna era lancinante. A cabeça uivava e gemia a cada nova estocada. Elza ria prazerosa, totalmente fora de si.

Por fim, extenuada, enxugou com as costas das mãos o suor que descia pelo rosto, afastando os cabelos desgrenhados que cobriam sua fronte, dificultando sua visão. Seu peito arfava e suas mãos tremiam. Precisava descansar. Puxou a cadeira, mas antes que se sentasse, voltou os olhos para aquela coisa ensanguentada e horrorizada, percebeu não ser a cabeça do marido, mas a de Heraldo, seu irmão querido. O olho que lhe restava mirava seu semblante. A boca destroçada emitiu: “Assassina!”.

Gritou, sentindo tudo escurecer.

Um dos vigias, ouvindo os gritos, correu para o local, encontrando a patroa desacordada. Parecia morta. Desesperado, avisou o companheiro e ligou por socorro.

Os paramédicos constataram a morte de Elza Borges. Infarto fulminante. O corpo foi levado pela ambulância. Dois policiais chegaram numa viatura barulhenta.

Inquiridos se haviam ouvido alguma coisa, um dos vigias disse ter escutado um grito seguido de uma gargalhada. Um dos policiais verificou então o embrulho que havia sobre a mesa. Os demais acompanharam quando ele abriu uma caixa dourada. Estava vazia. Embaixo da mesa encontraram o que jazia em seu interior: um pequeno palhaço de pelúcia. O boneco estava rasgado e uma espuma amarelada se projetava de seu interior; a cabeça retorcida não possuía um dos olhos. Ao mexer no objeto, caiu um cartão de presente dourado. Nele estava escrito: “Para minha querida sobrinha, com amor. De sua tia: Marinalva Borges”.


Fim








39 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page