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Os homens-jacarés

Os seres de Orokaba - episódio 3








Os homens-jacarés são seres transmorfos que habitam a Floresta de Tanhandú, uma região próxima ao reino de Xuclotal, terra dos capelobos, no mundo dos Encantados. Originários do vale de M’boi, foram banidos de suas terras pelas hordas do tirano Boiuna, o monarca dos homens-cobras.

O trecho abaixo, extraído do livro Kulkucaia, a bruxa, descreve o aspecto desses seres e de sua aldeia:

“Os imensos portões de madeira revelaram um quadro singular; o que à primeira vista parecera uma aldeia primitiva, lembrava agora uma pequena cidade. Casebres de pedras cobertos de junco surgiam enfileirados em ambos os lados, um caminho pavimentado substituía o chão de terra batida, conduzindo os visitantes a uma ampla praça.

As “pessoas” deixavam suas moradas e seguiam o cortejo. Todas tinham aquele aspecto reptiliano, a pele variando entre os tons cinza, marrom e verde. O tórax e o ventre amarelados, cortados por traços escuros. Os cabelos, quando os possuía, negros e espetados, de comprimento moderado, alguns no máximo à altura dos ombros. Trajavam uma espécie de saiote de couro. As mãos e os pés dotados de quatro dedos com unhas escuras e pontiagudas. Algumas mulheres surgiam com crianças ao colo ou de mãos dadas aos rebentos. Os homens, em sua maioria carecas, portavam uma espécie de lança de madeira com duas pontas de metal, ou uma machadinha de pedra com dois gumes.

O piso da praça, no interior da aldeia, era também pavimentado por pedras triangulares e em seu centro se destacava uma imensa esfera de cobre, azinhavrada pelo tempo, parecendo ser a tampa de um fosso ou talvez a entrada de um túnel. O grupo de Kulkucaia passou sobre ela em direção a uma majestosa escadaria no final da praça; esta levava a um patamar sobre o qual jazia um trono de ouro. Atrás, erguia-se a morada do grande líder, um palácio de pedra e telhado de palha entrançada. ”

Como os capelobos de Xuclotal, os homens-jacarés, com o passar do tempo, civilizaram-se e com o contato com os povos vizinhos, como os homens-guarás e os próprios capelobos. Deixaram os pântanos e ergueram aldeias que se assemelhavam a pequenas cidades. Desenvolveram um governo patriarcal, o rei governava absoluto, as mulheres–jacarés não participavam da política, nem possuíam voz no conselho. Os anciões também não eram bem vistos, aliás a idade era para eles um fator descriminante. Quando o indivíduo deixava de ser efetivamente produtivo, era encarado como um fardo à sociedade e para eles restava o exílio, a Caverna dos Antigos. Este local foi considerado por muito tempo um dos mais abomináveis na história social desses seres. Como podemos observar neste relato extraído do livro Kulkucaia, a bruxa:

“No solo rochoso da caverna, parcialmente alagado, avistaram formas humanoides se arrastando. Algumas deitadas sobre velhas esteiras de palha, outras, parcialmente afundadas nas poças de lama. Os gemidos, tossidos e grunhidos tomavam conta do local. A parca claridade da tocha associada a uma lamparina velha de gordura, suspensa num nicho próximo, revelou a cruel realidade: uma colônia de homens-jacarés idosos, em deplorável situação.

Os visitantes desceram três degraus de pedra que levavam a outro compartimento. A água dava no joelho. Mergulhado, apenas a cabeça para fora da água, o ancião reptiliano, que um dia fora o rei, olhava para eles. ”

Considerada por muitos dos povos que habitam Orokaba como uma nódoa social, a Caverna dos Antigos foi enfim desativada após a morte do rei Kokumo III.

No entanto, um ramo da espécie dos homens-jacarés desenvolveu-se isolado, trilhando caminhos opostos. Afastando-se do convívio com outros povos, esses seres se embrenharam nas florestas mais densas e nos pântanos mais escuros de Mampituba, tornando-se uma das raças mais selvagens e pavorosas de Orokaba, os jaeça-carés.

Em Kulkucaia, a bruxa é descrita a aparência de um desses seres em sua mais completa selvageria:

"O barulho das pisadas pareceu estremecer a aldeia. A maioria das mulheres fugiu, carregando suas crias. A fera, escoltada pelos guerreiros, estava agrilhoada, correntes pesadas prendiam seus pulsos. Outras se arrastavam, presas a uma de suas pernas, produzindo um barulho medonho. Da altura de dois homens, andava ereto e tinha a cabeça monstruosa de um jacaré. Os braços musculosos terminavam em garras com unhas pontiagudas. Era cinza-escura, o ventre esverdeado, e trajava um saiote de couro encardido. Da bocarra, uma baba repulsiva descia por entre as presas.

Era nítido que, se o povo-jacaré era um misto de homem e réptil, aquele ser nada tinha de humano, era a selvageria encarnada."

Como os capelobos, os homens-jacarés também se sentem atraídos pelos seres humanos, a própria Kulkucaia cultivou intempestivo relacionamento em tempos remotos com um desses seres. Por isso há casos de miscigenação, sendo que os híbridos comumente sofrem algum tipo de preconceito por aqueles que se dizem pertencer a raça pura de sua estirpe.

Os homens-jacarés cultuam divindades ligadas às águas e sua principal deusa chama-se Susha e é representada por uma mulher com uma cabeça imensa de jacaré, portando uma lança em uma das mãos e sob o pé esquerdo a cabeça de uma cobra sendo esmagada, alusão à animosidade existente entre os cultuadores da deusa e o povo cobra de M'boi, seus tradicionais inimigos.

Acompanhe a história desse povo e dos seres de Orokaba nas páginas de Kulkucaia, a bruxa e no livro Moara, a princesa dos Incas.

Por enquanto é só, no próximo episódio falaremos sobre os monstruosos mapinguaris.

Abraços fraternos.




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