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A Tumba do horror - parte 1

Atualizado: 13 de out. de 2023








1 — Areia, monstros e ladrões


Abidos, Egito, ano de 1938. A equipe do arqueólogo francês Pierre Belmondo terminara os trabalhos do dia e o pessoal contratado para as escavações havia seguido para suas tendas em um acampamento próximo. Apenas ele, sua namorada e seus dois assessores de confiança, o primo Michel e um rapaz chamado Pablo, permaneceram, trocando conversa no local das escavações.

— Tome mais um pouco de vinho, meu querido, precisamos comemorar a sua descoberta, além de que, o calor desta terra selvagem nos consome cada gota de umidade… — comentou a jovem ruiva enquanto servia o namorado. — Não vejo a hora de retornarmos à nossa casa!

— Ah, minha querida Jeanne! Só você para chamar um país maravilhoso como este de selvagem! Esquece que um dia esta terra foi o lugar mais civilizado do mundo? Acredito que os antigos egípcios tenham, durante muito tempo, utilizado uma tecnologia além da nossa compreensão.

— Entendo seu entusiasmo, Pierre, e concordo que o povo que viveu aqui tenha sido culto, mas hoje só resta areia, ladrões e miséria.

Pierre balançou a cabeça e sorriu, acompanhado pelos demais. Todos estavam acostumados com os desatinos de Jeanne e as palavras da frívola jovem entravam por um ouvido e saíam por outro.

Jeanne fora criada numa família abastada e filha única, tinha sempre os desejos atendidos. No entanto, há três anos, sua vida sofrera reviravoltas. Seu pai perdera a fortuna, mergulhado no vício dos jogos de azar e não tendo como arcar com os compromissos, optou pelo suicídio. Sua mãe, dissipadora, jamais se preocupara em economizar. Habituada à vida na alta sociedade, quando se percebera arruinada, adoecera. Vivia agora internada em um sanatório em Florença.

A salvação de Jeanne viera na figura de Pierre, um jovem professor de quarenta anos com uma carreira promissora no mundo da arqueologia e herdeiro de uma pequena fortuna recebida dos avós paternos, agora falecidos. O rapaz não havia conhecido a mãe que morrera na ocasião do seu nascimento, tampouco se lembrava do pai que, militar, falecera em combate quando ele completara cinco anos.

Pierre, apaixonado, cobria a namorada de zelos. Eles haviam se conhecido há menos de um ano em uma festa na Sicília. Jeanne morava com uma tia idosa, irmã de seu falecido pai. A paixão havia sido explosiva e depois de dois meses ela se decidira a acompanhar o namorado ao Egito. Lá, conhecera Michel, um primo de Pierre e seu braço direito. Era ele quem cuidava de tudo na ausência do arqueólogo. Não havia concluído os estudos, mas aprendera muito com o primo em suas expedições.

— Pierre, eu não acredito! Você quer deixar para amanhã? Como pode? Estamos loucos para saber o que há nesta câmara!

— Michel, você sabe o quanto essa gente é supersticiosa. Com o cair da noite, eles se recusam a prosseguir o trabalho. Temem os espíritos, que segundo eles rondam essas paragens.

— Também não gosto da ideia de vocês trabalharem à noite, não devido a espíritos, pois não acredito nessas coisas — comentou Jeanne —, mas por conta de ladrões. Sempre ouvimos algum relato sobre ataques, tremo só em pensar!

— Não se preocupe, minha querida — respondeu Pierre abraçando a namorada, sem perceber uma troca estranha de olhares entre os Michel e Pablo. — Tomamos todas as precauções, estamos seguros aqui.

— Mas primo… — Michel retomou insistente — por que não abrimos de uma vez essa câmara? Acredito que duas horas de trabalho sejam suficientes. Cadê o seu espírito aventureiro?

— Pode contar comigo, senhor Pierre. Também estou muito curioso — completou Pablo.

— Então, sendo assim, não vejo por que deixarmos para amanhã! — decidiu-se o arqueólogo com um sorriso no semblante. Os companheiros ovacionaram entusiasmados.

— Jeanne, meu amor, se quiser retornar para nossa tenda, quando terminarmos, mandarei chamá-la.

— Claro que sim, meu querido. Aguardarei ansiosa.

— Mas não quero que se preocupe. Se demorarmos e sentir sono, durma.

— Não, meu querido, estarei em boa companhia. Veja o que comprei quando deixamos a casa de titia.

— Frankenstein! — intrometeu-se Pablo. Sou louco por esse livro, é de uma escritora, esqueci o nome.

— Mary Shelley — disse Pierre.

— Assisti ao filme, foi sensacional — comentou Michel.

— Eu preferi a continuação — interrompeu Jeanne. — Achei a Noiva de Frankenstein bem mais interessante.

— Eu diria mais sombrio — devolveu Michel.

— Ou quem sabe romântico? — enfatizou Jeanne.

— Eu bem que queria ter assistido, mas minha mãe disse que não era apropriado à minha idade, na época — comentou pesaroso Pablo.

— A época que você menciona foi há três ou quatro anos — respondeu sorrindo Michel. Adorava deixar o rapaz embaraçado, coisa que conseguia com pouco esforço.

— Bem, então só me resta desejar uma boa leitura a minha destemida namorada, que parece não ter medo algum desses monstros terríveis, capazes de tirar o sono de qualquer um.

Todos riram. Após se despedirem de Jeanne, que seguira para sua tenda, os rapazes voltaram ao trabalho e, antes do tempo calculado, conseguiram enfim abrir a entrada da câmara mortuária.




2-A tumba


Era uma ampla sala adornada por estátuas de pedra folheadas a ouro e toda uma série de artefatos incríveis e muito bem-conservados. Uma porta menor, também folheada a ouro, prometia levar a outro compartimento. Após ser forçada e aberta, revelou um túnel escavado na pedra, e à primeira vista, escuro e desafiador.

— Trata-se de um corredor que certamente interliga outras câmaras ou salas secretas — esclareceu o arqueólogo.

— Talvez repletas de magníficos tesouros — comentou Michel, enquanto clareava com uma tocha a entrada do túnel.

— Certamente, e percebo ser ventilada — confirmou Pierre. — Coloquem a mão na entrada, sintam, há uma corrente de ar.

— Incrível! — exclamaram os assistentes.

— Primo, precisamos desvendar o que há no interior dessa câmara!

— Não sei se seria sensato entrarmos ainda hoje.

— Por que a dúvida? Eu o acompanho. Pablo ficará de vigília.

— E Jeanne?

— Você sabe, primo, que se ela for avisada, não nos deixará entrar. Depois o Pablo a avisa. Levemos duas lanternas de reserva e um lampião. Faremos uma pequena vistoria e voltamos em seguida. Você sabe que é o correto. Amanhã será impossível uma expedição segura sem o risco de sermos roubados. Infelizmente a cobiça transforma os homens.

Persuadido pelo primo, o arqueólogo concordou, penetrando com ele no escuro túnel. Estava radiante com o êxito dos trabalhos e o entusiasmo do primo e do jovem aprendiz. Via-se neles, há muitos anos, quando galgara os primeiros passos rumo à profissão predileta, a arqueologia, influenciado por seu saudoso avô. Ele sempre amara sua profissão, o fascínio da descoberta era algo inexplicável.

O teto do corredor era baixo e eles tinham que caminhar recurvados. A claridade revelava que, em certo ponto, o corredor se dividia em dois. Era imenso. Pierre, pegando a velha lanterna, clareou um dos túneis e ele parecia não ter fim. Seguiram em direção oposta e, em pouco tempo, para alívio deles, o corredor começou a alargar-se e eles adentraram uma câmara ampla e arejada.

Vasculhando com a luz da lanterna, Pierre avistou uma espécie de tocha fixada à parede, próximo dele, e com a chama do lampião a acendeu. Para seu espanto, outras tochas nos quatro cantos do salão, como por mágica, se acenderam, revelando um imenso e magnífico tesouro espalhado por todo o piso do salão. Pierre observou admirado, imaginando uma explicação plausível para a ocorrência de singular fenômeno. Seu primo nada percebera, seus olhos estavam voltados ao imenso tesouro.

— Inacreditável — comentou Michel. — Quanta riqueza! Vê primo, como foi bom termos vindo!

Mas o arqueólogo não respondera. Michel o observou com um ar de reprovação. Pierre, próximo de um sarcófago, examinava-o fascinado.

— Eis aqui, primo, a verdadeira riqueza de nossa descoberta, o sarcófago da Rainha Triflostenapstin! Uma soberba monarca, desconhecida por todos, rejeitada e amaldiçoada por seus desmandos, que teve seus arquivos riscados do registro da história do país. Vejamos aqui o que mais foi escrito sobre ela…

— Não será necessário que leia agora, primo.

— Como não, Michel? Nessas horas duvido de sua vocação, primo! Estamos diante de um dos maiores achados da História! Quantos estudiosos não dariam tudo por uma oportunidade como essa?

Michel calou-se, contrariado, enquanto Pierre, aproximando-se do esquife, começou a traduzir os seus hieróglifos. Desde cedo tornara-se um mestre nesse ofício. Michel, no entanto, mal prestava atenção, seus olhos corriam deslumbrados sobre as peças de ouro e as joias majestosas.

“Ouçam, cidadãos de nossa gloriosa Tebas e de todas as terras à margem do divino Nilo. Eis que no sétimo ano do reinado de nosso faraó Tutmósis IV, eu, seu leal escriba, registro com pesar os vis acontecimentos que assolaram nosso país. Por decreto real, o nosso senhor, o divino faraó, nos ordena lacrar a tumba da nefasta Rainha Triflostenapstin, acusada de, na noite mais escura, se erguer de seu sarcófago em busca de sangue. É sua culpa, segundo consta nos registros do templo de Hator, o assassinato do príncipe herdeiro Taomanisis. Por isso, tendo os deuses por testemunha, seu corpo será mantido nesse sarcófago, onde, há duzentos anos, foi sepultada viva. Em seu pescoço será colocada a pedra solar de Osíris. Essa joia prenderá o espírito de Triflostenapstin em sua carcaça para sempre, até o final dos tempos, quando Anúbis decidirá o seu destino. ”

— A pedra solar de Osíris! — exclamou Pierre ao final do relato.

— O que disse, primo? Que pedra é essa?

— A maior gema, jamais encontrada!

— Então vamos abrir esse sarcófago, agora!

— Não, Michel, acredito que não devemos. Amanhã faremos isso e depois avisaremos o Museu do Cairo sobre nosso achado. Que eles levem para o museu o esquife da sinistra rainha e seu malfadado tesouro.

— Não acredito no que está falando, mas e nós? Vamos pelo menos levar a metade desse tesouro antes que o governo deste maldito país confisque tudo!

— O que está dizendo, Michel? Você está louco? Este tesouro pertence ao governo egípcio, não somos ladrões. Já somos pagos por nosso trabalho.

— Peço que desculpe meu entusiasmo, primo. Você tem razão, como sempre.

Pierre olhou desconfiado e profundamente decepcionado, mas preferiu, no momento, nada dizer. Quando fora daqueles subterrâneos, conversaria seriamente com o primo. Michel, tentando contornar a situação, disse, evitando os olhos de Pierre:

— Acredito que seja melhor retornarmos.

— Sim, Michel. É melhor. Amanhã regressaremos. Muito há para ser estudado.

Todavia, no momento que o arqueólogo se preparava para sair, sentiu uma dor aguda e sufocante. Michel covardemente enfiara um punhal nas costas do primo. Pierre tentou falar, mas um jorro de sangue inundou sua boca. Dando alguns passos em falso, despencou ao solo com a mão no peito. A lâmina fatídica havia alcançado seu coração.




3-Ambição desenfreada


Ignorando o corpo de Pierre, Michel correu ao sarcófago. No entanto, seus esforços não foram suficientes para abri-lo. Tampouco encontrou entre os objetos algo que pudesse auxiliá-lo. Decidido, encheu os bolsos com joias e, pegando o lampião, retornou pelo túnel.

No trajeto, Michel sentiu a incômoda sensação de ser seguido. Olhando para trás, tudo estava escuro e silencioso. Era apenas impressão. A morte de Pierre havia mexido com seus nervos, certamente fora isso, pensou. Gostaria que houvesse alguma alternativa, mas a presença do primo só iria atrapalhar os seus planos. Procurou mudar o foco dos seus pensamentos. Pensou no imenso tesouro e sentiu o coração sossegar. Logo o som de vozes chegou-lhe aos ouvidos e ele deixou o sinistro túnel, retornando à antecâmara. Pablo o aguardava na companhia de Jeanne.

— Onde está o Pierre? — questionou a jovem. — O que descobriram?

— Um tesouro imenso! Imaginem por essas joias. — Michel atirou uma para Pablo e as demais para Jeanne, que avidamente as agarrou, examinando radiante, mal contendo o entusiasmo. Em seguida, voltando os olhos para Michel:

— Então, o Pierre...

— Ele está morto, meu bem. Não é necessário mais fingimento. Pablo sabe tudo sobre nós. Foi preciso. Pierre pretendia, amanhã mesmo, comunicar ao Museu do Cairo sobre nossa descoberta. Nada sobraria para nós.

— Infelizmente, Pierre sempre pensou como pobre. Espero que tenha sido rápido.

Michel confirmou com um gesto que sim. Em seguida, aproximou-se da jovem e passou a afagar-lhe os cabelos. Ela correspondeu com um abraço, seguido por um beijo caloroso.

Frente à cena romântica, Pablo desviou o olhar. Nesse instante, um sentimento de repulsa tomou seu coração. Sabia há muito tempo que eles eram amantes. A princípio, não aprovara, mas conseguira que Michel, como primo do arqueólogo, lhe arrumasse uma posição de destaque na equipe. Esse fora o preço por seu silêncio. Agora, Pierre estava morto. Quando recebesse a sua parte do combinado, deixaria aquele país e aquelas pessoas desprezíveis. O tempo, somado à fortuna e aos prazeres de uma vida boa, o ajudaria a esquecer aquele fatídico cenário.

— Precisamos ser rápidos. Pablo, você virá comigo. Vamos levar dois pés de cabra.

— Para que, Michel?

— Será preciso, meu rapaz. Você não quer sua parte no tesouro?

— Sim, mas...

— Deixe de ser medroso, Pablo. Agora Michel é quem dá as ordens por aqui — interrompeu Jeanne.

— Eu não sou medroso, sua...

— Cuidado com o que diz, moleque, senão quebro-lhe os dentes. Jeanne será minha esposa.

Sem nada responder, Pablo, cabisbaixo, pegou as ferramentas.

Jeanne olhou irritada para o rapaz, mas em contrapartida, a intervenção de Michel a deixara satisfeita. Ele era o homem certo para ela. Juntos seriam felizes. Logo estariam deixando aquele país terrível e coberto de areia. A Europa que os aguardasse, Varsóvia, Veneza, Paris, com suas noites deslumbrantes, seus teatros, suas festas magníficas regadas a bom vinho e champanhe!

— Tenha cuidado, meu amado, estarei aqui à sua espera.

Após as despedidas, seguiram os rapazes pelo túnel escuro, alcançando em pouco tempo a câmara do tesouro. Quando nela entraram, Michel se assustou com a palidez de Pablo.

— Olhe toda essa riqueza, meu rapaz, não é magnífico?

— Sim, é deslumbrante, um mar de joias, o tesouro de vários reis!

— Mas por que está tão pálido? Sente-se bem?

— Apenas uma tontura, mas vai passar. Sempre tive pavor de locais abafados.

—Esqueça todos seus medos, meu rapaz. A partir de hoje, estamos ricos! Agora me ajude, pois precisamos abrir este sarcófago.

— Para quê? Com a quantidade de joias que há por aqui, não há necessidade de nos importarmos com este ataúde. Vamos dar umas cinco viagens. Será o suficiente para nunca mais trabalharmos!

— Deixe de ser medroso e me ajude. Pierre disse que havia uma joia imensa neste ataúde. Ele leu a descrição.

— Você não me falou nada sobre abrir sarcófagos. Não devemos mexer com quem já está morto.

— Moleque irritante e medroso! Dê-me esse pé de cabra que eu mesmo abro.

— Não sou medroso — respondeu o garoto.

Michel forçava a tampa do sarcófago, sem conseguir abri-la. O suor descia por sua testa. Pablo sentiu-se envergonhado por não ajudar. Não admitia ser chamado de medroso, por isso, mesmo contrariado, pegou a ferramenta. No entanto, enquanto auxiliava a abrir o esquife, algo lhe chamou a atenção.

— O corpo do Sr. Pierre, onde você o deixou?

Michel olhou ao redor, procurando lembrar-se.

— O deixei caído no meio dessas joias. Deve estar soterrado no ouro, mas o que isso importa?

Uma rajada de vento bateu de repente, quase apagando as tochas, no momento em que o sarcófago foi aberto. Pablo, olhando para o interior do esquife, gritou assustado. Uma figura o observava com os olhos vermelhos, era algo como uma massa escura, esponjosa, exalando um odor sufocante.

Contudo, assim como aparecera, a visão se desfez, do mesmo modo, o mau cheiro, ficando em seu lugar apenas o cadáver de uma múmia ressequida pelo tempo. Em seu pescoço uma imensa pedra avermelhada soltando chispas de encontro à luz do lampião.

— Por Deus, que grito foi esse, Pablo? Quase me mata do coração, rapaz! Nunca viste uma múmia antes?

— Pensei ter visto outra coisa. Sentiu o vento que bateu de repente e como a câmara ficou fria? É melhor fecharmos este sarcófago e esquecermos esta múmia asquerosa.

— Não diga besteiras! Olhe o tamanho desta gema! — Apontou para o gigantesco rubi, preso a uma corrente de ouro, cingindo o pescoço cadavérico da múmia.

— Muito bem, você é quem sabe! Minha parte, eu já fiz, ajudando-o. — O rapaz, então, encheu de joias um dos sacos de farinha que trouxera consigo e, quando ia saindo, percebeu que a lanterna à pilha deixara de funcionar.

— Minha lanterna não acende, me empreste a sua, Michel.

— Não lembro de onde a deixei. Leve o lampião ou uma das tochas, garoto imbecil.

Pablo, sem responder, retornou ao túnel, levando uma das tochas e deixando o lampião para o homem. Imaginou que a lanterna dele pudesse também apresentar algum defeito. Essas coisas costumavam acontecer dentro das tumbas.

Michel permanecia junto ao esquife, o brilho avermelhado da pedra absorvia sua atenção. Com um puxão brusco arrancou a corrente, quebrando o pescoço da múmia, deixando a cabeça asquerosa quase solta da carcaça. Deslumbrado, passou a contemplar a imensa joia à luz das tochas, quando ouviu um gemido oriundo do interior do esquife. Sentindo os cabelos se arrepiarem, voltou os olhos para o sarcófago. Parecia que uma carne esponjosa havia recoberto o corpo da múmia. Percebeu que o peito da criatura arfava, como se ela respirasse.

Assustado, colocou a gema no bolso e, pegando uma das tochas, penetrou no corredor atrás de Pablo. Um medo aterrorizante havia se apoderado da sua alma.

No corredor, que agora parecia mais extenso, Michel seguia apavorado. Sentia como se alguma coisa viesse em seu encalço. Um vento repentino apagou a tocha que trazia. Havia esquecido a lanterna elétrica e nem se lembrara do lampião. A escuridão era terrível e espessa. O ar parecia cada vez mais abafado. Para seu horror, sentiu uma respiração próxima ao seu ouvido e um calafrio percorrer-lhe o corpo. Apressou os passos. O corredor parecia estreitar-se. Percebeu que havia tomado o caminho errado, seguido em direção oposta, provavelmente a passagem que avistara na companhia de Pierre. Agora, era necessário que caminhasse de barriga ao solo, arrastando-se. Sentiu dedos crisparem em seus calcanhares e, por fim, alguma coisa segurar um dos seus pés. Debateu-se aos gritos e a mão misteriosa o soltou. Tentou se apressar, mas a largura do corredor não ajudava. Sentiu uma corrente de ar do seu lado esquerdo indicando uma possível passagem e, à sua frente, o rastejar de alguma coisa vindo em sua direção. Sem alternativa, enveredou pela abertura, tomando um novo túnel. Sua testa suava, seu peito arfava.

Escutou então um grito assustador oriundo do outro túnel. Reconheceu nele a voz de Pablo. Quis voltar, mas não pôde — o corredor era tão estreito que ele não podia virar-se. Ouviu de novo um rastejar atrás de si. Louco de pavor, seguiu em frente, deslizando o mais rápido que podia, sentindo os cotovelos sangrarem.

Gargalhadas e grunhidos preencheram de forma macabra a sinistra tumba. Um gemido horrível penetrou-lhe os ouvidos. Para seu alívio, viu-se livre do corredor adentrando uma ampla câmara. Havia escapado temporariamente daquele túnel sufocante.


Continua.









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