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A Dança dos Esqueletos

Atualizado: 7 de set. de 2023

Um conto de Halloween.


“A noite é cheia de horrores;

Sombria, a madrugada.

Almas perambulam viventes

na escuridão enevoada.

É no bailar incongruente

de ossos, terras e flores

que se tornam vigentes

os seus maiores temores.”

(Alexandre Menphis)




O pio estridente de alguma ave noturna, cortando o silêncio da noite, disparou meu coração. Instintivamente cruzei os braços sentindo o corpo arrepiar, o ar gélido parecia penetrar cada fibra do meu ser. O relógio indicava sete minutos para a meia-noite. Apressei os passos, voltando a recriminar minhas recentes decisões. A primeira dizia respeito ao fato de haver viajado naquela noite de Halloween, olvidando os conselhos de tia Selma para que pernoitasse em sua aconchegante residência. A segunda devia-se a minha incorrigível falta de paciência. O carro dera pane na estrada. O local era totalmente deserto, mato de todos os lados, quando resolvi xeretar no motor, pois não entendo praticamente nada de mecânica, percebi à minha esquerda, por trás das frondosas árvores, o telhado de um casarão com chaminés. Um caminho surgia por entre algumas árvores, o chão roçado. Imprudente decidi segui-lo. Andei por um bom tempo. Cada vez que conseguia vislumbrar o telhado com chaminés, eles pareciam mais distantes. Já ponderava retornar quando estanquei o passo, aturdido. À minha frente destampara-se uma clareira e os raios amarelados do luar aclararam nesse instante o que para mim descortinar-se-ia como o quadro de uma cena de horror. Uma fogueira, cuja chama crepitava um brilho azulado e fantasmagórico. Sua aproximação emitia, ao contrário do fogo comum, um frio absurdamente intenso. Senti o corpo esmorecer. Tive ímpetos de recuar, mas as pernas não me obedeciam. O silêncio era tão absoluto que parecia que tudo havia simplesmente se aquietado, não se ouvia os grilos, os insetos, nem o barulho do vento. Me lembrei dos relatos que ouvia de minha avó Maria, quando criança. Ela mencionava o “silêncio da noite”, que segundo ela seria o momento que as almas penadas deixavam as sepulturas e as coisas ruins de toda espécie apareciam sedentas por sangue. Mas o quadro assombroso tornar-se ia ainda mais assustador. Do solo algo começou a aflorar. Primeiro uma mão esquelética, cujos dedos reviravam o chão areento, a seguir um crânio asqueroso. Percebi que novos montículos de terra se formavam ao redor, eram outras cabeças e mãos ossudas que se desprendiam freneticamente do solo. Uma melodia tomou o ar da noite de assalto. Parecia uma missa fúnebre entoada a quatro vozes e acompanhada por uma sinistra orquestra, percebi o som de flautas, clarinete e violinos. Os quatro esqueletos se ergueram, livres por completo da terra e do mato, e então para meu horror começaram a bailar em torno da gélida fogueira. Era uma dança macabra e assustadora. As caveiras rodopiavam sobre o pescoço. As bocarras se abriam emitindo grunhidos quase inaudíveis devido a gótica melodia que preenchia o ambiente. Foi quando para meu horror um dos esqueletos aproximou-se de mim. A orquestra havia repentinamente silenciado. Senti um frio se apossar do meu corpo, oriundo da sinistra assombração, era como se estivesse a beira de um freezer. Ouvi a voz da criatura preencher meus ouvidos. — Doces ou travessuras? Respondi com a cara de quem não havia entendido. A caveira prosseguiu após uma gargalhada. — Sabes que dia é hoje, impetuoso viajante? Não acabaste de assistir ao nosso espetáculo? Como pretendes pagar? — Pensa com cautela, incauto, pois de tua resposta depende a tua vida — murmurou outro esqueleto a fitar-me com olhos de um brilho avermelhado. — A prenda! — grunhiu um terceiro com voz feminina. — Deves pagar a prenda! Senti meu medo triplicar. O que eles queriam? Pensei em tia Selma me alertando para ficar em sua casa. Titia era católica fervorosa, nunca acreditei em religiões, bíblias ou coisas desse tipo. A mão esquelética se aproximou mais, estendida aguardando o pagamento. Minha cabeça girava, sentia que iria perder os sentidos. Percebi então nessa hora os movimentos retornarem. Enfiei uma das mãos nos bolsos, procurava minha carteira, iria dar todo o meu dinheiro para a criatura. Ela não queria que eu pagasse pelo show que havia involuntariamente assistido? Abri a carteira, o frio era intenso, minhas mãos tremiam. Foi quando avistei o pequeno pingente. Um relicário com o semblante de Nossa Senhora, que minha tia havia me presenteado. Ela certamente o colocara em minha carteira, pois não me lembrava de havê-lo feito. Num impulso depositei o objeto na mão do esqueleto. Um grito estridente se ouviu acompanhado pelo que pareceu uma pequena explosão. Uma fumaça escura tomou o local. Ainda consegui vislumbrar, em meio a fumaça, a criatura rodopiando aos gritos. Vi formas vaporosas se desprendendo dos esqueletos, eram escuras e pavorosas. Elas circulavam ao meu redor, as bocas abertas como se quisessem me morder. Ouvi gemidos, gritos, urros e gargalhadas. Perdi então os sentidos. Acordei algum tempo depois. O relógio apontava três horas da madrugada. O frio intenso havia passado. Nem sinal da fogueira assombrosa e de seus horríveis ocupantes. Retornei apressado pelo caminho, me apegando com Deus e todos os santos que já ouvira falar. Tinha a sensação de que algo me seguia. Tremia frente ao simples balançar do mato ao meu lado, imaginando a possibilidade de mãos esqueléticas surgirem e me arrastarem para algum buraco escuro e tenebroso. Após alguns minutos avistei surpreendido meu automóvel, o percurso desta feita me parecera breve. Abri a porta do carro com sofreguidão, por duas vezes a chave caíra por entre os dedos que tremelicavam de frio e medo. Me aninhei enfim nos estofados macios, me cobrindo com uma manta de lã, aguardando ansioso o amanhecer. Com o claro do dia procuraria ajuda. Nunca meu velho automóvel parecera tão confortável e seguro.

Fim.



Sobre este Conto


Escrevi a Dança dos esqueletos em 2022 para ser publicada diretamente neste blog, mas como não havia tido tempo para uma revisão, pois estava finalizando meu livro Moara, a princesa dos Incas, agora em fase de pré-venda pela plataforma Uiclap em formato físico, (breve estarei divulgando, pois aguardo a chegada do meu exemplar piloto, haja ansiedade! rs. ) por isso não divulguei o conto pelas redes sociais.

Espero que gostem, ou melhor, que se divirtam com A dança dos Esqueletos nesta noite de carnaval.

Abraços fraternos e boa leitura.
























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